Esperanças e Expectativas

Uma flor nasceu na rua!

Uma flor nasceu na rua!

Lembrar-te-ás toda ternura que expressamos,
Sempre que juntos, a emoção que partilhamos…
Nem a distância apaga a chama da paixão.
(Soneto da saudade, Guimarães Rosa)

Há quase dois meses conversava com uma amiga sobre esperanças e expectativas. Embora fosse uma conversa informal que questionava as razões humanas da decepção causada pelas pessoas mais próximas de nós, não pude deixar de perceber naquele momento que muitos filósofos, escritores e músicos já haviam abordado essa questão.

Não pretendo transformar o que se seguirá em alguma espécie de ensaio filosófico, literário ou teológico. Caso o faça, me perdoe. Minha finalidade aqui é apresentar a diferença realizada na prática entre estas duas palavras: esperança e expectativa.

Os versos que abrem este texto são os últimos do Soneto da Saudade, de Guimarães Rosa. Como você já deve ter percebido, ele não trata nem da esperança nem da expectativa. Ao que parece, o poeta fala sobre a saudade provocada por um amor geograficamente distante. Aqui, você se pergunta: “ele não ia falar sobre esperança e expectativa?“. E eu respondo: “e vou. Você entenderá agora!“.

Em sua Suma Teológica, São Tomás de Aquino aborda diversas questões que não são apenas teológicas, mas também morais, éticas, passionais, filosóficas além de muitos outros temas que são importantes para a existência humana. Em certa parte dessa obra, o dominicano examina as paixões do irascível (que é um dos apetites da alma) e pergunta: “É a esperança o mesmo que o desejo ou a saudade?” Se pensarmos bem, a saudade pode assemelhar-se à esperança (ou seria expectativa?), já que ambas visam o bem futuro. Motivado por este raciocínio, o Doctor Angelicus demonstra que “a potências diversas correspondem paixões diversas” e soluciona a questão, diferenciando-os segundo os apetites da alma. Para simplificar, exemplificar e correlacionar (finalmente!) ao cerne da questão que estamos discutindo, vejamos a música Chega de Saudade, de Vinícius e Jobim:

Vai, minha tristeza
E diz a ela que sem ela não pode ser
Diz-lhe numa prece
Que ela regresse
Porque eu não posso mais sofrer

Chega de saudade
A realidade é que sem ela
Não há paz, não há beleza
É só a tristeza e a melancolia
Que não sai de mim
Não sai de mim
Não sai

Como notamos ao entender os versos da canção, a tristeza do trovador é causada pela saudade que tem de sua amante. Embora existam tristezas boas, o exagero expressado ultrapassa o bom senso da melancolia e apenas faz com que esse amor se transforme em meras expectativas de se ter a mulher de volta. A pergunta novamente é: e por que não esperanças?

Onde há tristeza não existe esperança. Em uma de suas cartas, São Paulo recomendou ao povo tessalônico que não se entristecesse como outros povos sem esperança. A falta de esperança não permite abertura ao novo, ao hoje e ao eterno, pois a tristeza que toma o lugar da esperança prende-se ao antigo, ao ontem e às coisas que não perenes.

Chamo a uma esperança má de expectativa. É claro que não há esperança alguma mas apenas tristeza. A tristeza mascarada de esperança é como denomino a expectativa. Visto que existe uma tristeza que é boa, a que tipo de tristeza nos referimos quando falamos da falsa esperança ou expectativa?

Na fábula da cabra e do asno, Esopo ensina-nos que “em todo plano de maldade, a vítima principal sempre é seu próprio criador“. A expectativa da cabra (o protetor fisicamente forte) em receber mais alimentos foi exteriorizada. Como toda expectativa, não poderia ter resultados positivos e seu colega asno (o humilde) foi prejudicado por causa de sua inveja. Concluímos, portanto, que a inveja é um dos disfarces da expectativa.

Outro mal gerado pela expectativa é a dureza de coração. Escrevendo aos hebreus, São Paulo também fala sobre essa revolta com a qual o nosso coração rejeita o bem. Acredito que todos os males que tratem da expectativa partam desse mal, porque sem a pureza de coração, ou seja, sem que o nosso coração esteja aberto ao bem, acabamos por nos fechar cada vez mais em nosso egoísmo, desejando apenas nossas vontades próprias. E quando esse desejo não é realizado, vem a decepção.

Pois bem, conforme comentei no início deste texto, a motivação para que eu o escrevesse foi uma conversa com uma amiga. Contava-me que ficara decepcionada com algumas pessoas e se perguntava do por quê de isso acontecer. Após cansar-vos com meus balbucios, quero encerrar esta exposição com a seguinte lição que aprendi na vida: “se eu estou decepcionado, a culpa disto é totalmente minha“.

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